A justiça é cega, mas a qualidade é visível!

Não obstante ao fatídico filme de 2013, deixar o ceticismo envolver uma série situada dentro do UCM (Universo Cinematográfico da Marvel) ou ainda exibida pelo Netflix (um dos maiores startups a se consolidar no mercado e a popularizar seus serviços por quase todo o globo) parecia injusto com um personagem tão promissor e, tendo em vista a obstrução nas telonas por parte da Marvel Studios no que se refere a personagens que não sejam heróis de alto escalão ou com demandas gigantes de popularidade, um sistema de streaming que trouxesse independência e uma visão mais descompromissada parecia o ambiente certo para o Demolidor mostrar a que veio, e isso ficou perceptível logo no primeiro trailer.

 

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Um drama realista, mas ainda uma história de herói

Se por um lado nos acostumamos ao exagerado senso de humor e ação nos filmes da Marvel e com esse modelo tendo encontrado seu ápice em Os Vingadores (2012), após a invasão alienígena e a destruição causada no filme supracitado, somos apresentados a um mundo fragilizado em uma escala muito menor, quase como se tivessem colocado uma lupa no UCM a fim de explorar as nuances e efetivas competências de determinada região e é notável a mudança de perspectiva adotada logo nos primeiros momentos.

Com uma classificação para maiores de 18 anos, a série desprendeu-se de ter elementos familiares e se afeiçoou a uma das fases mais sombrias do protagonista, a violência é real e nítida, ossos se quebram, personagens morrem, a polícia se mostra corrupta e a mídia prioriza interesses particulares e chega a arrepiar ver nascer um autêntico herói ideológico dentro de um ambiente de verdadeiro caos. Outro preceito dessa levada realista é a forma que transpassaram as habilidades de Matt Murdock (que não foge muito da premissa básica: quando criança, Matt sofreu um acidente químico que o fez ficar cego, mas que trouxe agução elevada para todos os seus outros sentidos à níveis sobre-humanos), onde ouvir o coração pulsar mais intensamente ou outros efeitos audiovisuais nos permite perceber a utilização e mesmo assim, essas aptidões são mostradas aos poucos, de modo sutil e em constante evolução, o que faz os poderes agregarem de fato a história e não somente servir de deleite aos olhos com efeitos de computação gráfica como ocorre nas abordagens nas telonas, na maioria dos casos.

o-DAREDEVIL-570Advogado de dia, justiceiro a noite

Um dos aspectos mais interessantes do Demolidor sempre foi sua dualidade ideológica bem como sua profissão e os responsáveis pela série usaram e abusaram disso. Envolto em uma formação católica e bastante atencioso aos paradigmas religiosos, Murdock se vê num conflito interno ao perceber suas contribuições como justiceiro noturno e sua imensa sede por sangue é cessada unicamente por sua ética cristã. Como solução, ele toma todas as dores e consequências de seus atos e usa seu uniforme clássico, vermelho em sua totalidade e carregando chifres como se, ao vesti-lo, externasse seus demônios internos, sua concepção de como é ser um humano, os quais ele julga durante o dia enquanto advogado.

Partindo desse preceito, é fácil encontrar diálogos ricos e sólidos acerca dessa dualidade com o padre da paróquia em que visita, onde manter-se um herói ao invés de perecer sobre seus instintos básicos se torna prioridade.

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Um elenco competente e o melhor vilão (cinematográfico) da Marvel

Não é de hoje que o UCM demonstra ter dificuldade em solidificar vilões de seus filmes e séries, restando geralmente ao herói lutar com seus fantasmas e conflitos internos, mas em Demolidor, podemos ver um Wilson Fisk absolutamente memorável, o vilão é muito mais humanizado que nos quadrinhos mas igualmente cruel, o que nos transmite uma sensação de total imprevisibilidade, aspecto que perfaz uma atmosfera pesada em todas as atitudes e planos do personagem, ademais a escolha de Vincent D’Onofrio para interpretá-lo se mostrou muito assertiva, pois sua atuação roubou cena em diversos momentos e seu  físico em muito se assemelhou as expectativas dos fãs.Demolidor e Charlie Cox 1

No time de apoio, todas as atuações se mostraram caricatas e com seu devido espaço, seja Foggy (Elden Henson) e seu alívio cômico dentro de um ambiente sombrio, Karen (Deborah Ann Woll) trazendo delicadeza e consolidando a tríade de protagonistas, Stick (Scott Glenn) e seus trejeitos autênticos de mentor frio ou até mesmo Claire (Rosario Dawson) que promete ser a ligação entre as posteriores séries da Netflix como enfermeira da noite. Já o intérprete de Matt Murdock, Charlie Cox, tem o sorriso de bom moço mais competente e singelo que já se viu, mas faz os vilões chorarem (ou sangrarem) com a mesma maestria, diante disso, é preciso dizer mais alguma coisa?

O futuro e “Os Vingadores” da Netflix

Defensores-340x420Pouco podemos afirmar sobre o futuro da série, apesar de aclamado por público e crítica, Demolidor nada mais é que a primeira iteração dentro desse acordo entre Netflix e Marvel, mas é interessante ressaltar que com o retorno positivo e a popularização do gênero no cenário atual, gerar uma série de qualidade equivalente deve estar nos planos do estúdio para a já confirmada segundo temporada (mérito dos fãs, inclusive) com participação do Justiceiro. Podemos esperar uma série a cada seis meses, sendo que ainda em 2015, veremos no catálogo a inserção de Jéssica Jones e posteriormente, em 2016, Luke Cage e Punho de Ferro, tudo a fim de conceber uma série reunindo os quatro heróis em Os Defensores e claro, fazer nossos R$20 mensais (preço de assinatura do Netflix) valerem mais que a pena (risos).

“Não busco perdão pelo que fiz, peço perdão pelo que vou fazer”
– Matt Murdock, Demolidor.

 

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Tem ninjas e tem Stan Lee, é preciso dizer que vale a pena?

Foram exatos 13 episódios! Pode parecer pouco, mas foi tudo tão bem trabalhado que nem percebemos tamanha a velocidade com a qual nos afeiçoamos aos personagens. Nunca imaginei que uma série com orçamento menor e exclusivamente transmitida através do Netflix pudesse ter um impacto, força e qualidade tão portentosos, o realismo dentro dos limites possíveis pra ficção de um universo heróico, os nuances morais e a cara de bom moço do Charlie Cox realmente foram algo surpreendentemente positivo e após uma época da Marvel de heróis ultra poderosos, deuses, monstros gigantes verdes e bilionários em armaduras, parece que chegou a hora dos heróis das ruas terem sua vez, nem sempre super, tendo como apoio unicamente suas ideologias e amigos, heróis daqueles que nos tocam com sua sensibilidade e humanismo e nos fazem não só torcer por eles, mas sim refletir.

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Em trocadilho histórico, a primeira série da plataforma de streaming a receber as descrições em áudio para deficientes visuais foi (tcharãm) Demolidor.

A segunda temporada já está prevista para 2016, enquanto isso nossos saladeiros podem assistir todos os 13 episódios através do Netflix, não esqueçam de comentar suas expectativas, anseios e opiniões e cuidado não ficarem cegos de tanto assistir! (risos)

Felipe Augusto (OshaFelp)

Sonha em ser o maior treinador de Oshawotts do mundo e dominar o universo (não necessariamente nessa ordem) e possui o espírito do fogo necessário para temperar qualquer salada! Entusiasta de entretenimento geral, especialmente de Nintendo e de pular bem alto (sem cair). Dizem que a cor de seu 3DS muda como um camaleão. "We are a fighting dreamers!" \o/

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